Hoje entro de férias. E desta vez foi diferente.
Durante muito tempo as férias chegavam e eu não estava lá.
O corpo ia. Arrumava a mala, fechava o computador, dizia a toda a gente que ia descansar. Mas a cabeça ficava. Nas coisas por fazer. Nos clientes. Nas mensagens por responder. Na sensação persistente de que havia sempre algo que precisava de mim e que eu estava a falhar ao não estar disponível.
As férias eram uma pausa forçada num ritmo que eu não questionava. Não eram um descanso real. Eram um intervalo antes de voltar ao mesmo.
Este ano foi diferente.
Não no destino. Não nas circunstâncias. Em mim.
Há algo que muda quando começamos a trabalhar a sério em nós próprias. Quando paramos de funcionar em piloto automático e começamos a fazer perguntas que durante muito tempo evitámos. Perguntas sobre o que realmente queremos. Sobre o que nos drena. Sobre o tipo de vida que estamos a construir e se é de facto a vida que escolhemos ou simplesmente a vida que aconteceu.
Este ano escolhi as férias. Não chegaram. Eu fui até elas.
E há uma diferença enorme nisso.
Escolhi parar antes de estar completamente vazia. Escolhi descansar sem esperar que o corpo colapsasse para me dar permissão. Escolhi colocar-me na lista, não no fim, na lista, antes que o ano inteiro passasse e eu chegasse a dezembro a perguntar-me onde é que eu tinha ficado pelo caminho.
Não foi fácil. Há uma voz muito treinada em mim que diz que descansar é perder tempo. Que há sempre mais uma coisa para fazer. Que o trabalho não pode parar. Que as pessoas precisam de mim. Que eu não posso dar-me ao luxo de parar.
Essa voz ainda está lá. Mas já não manda tanto.
Porque aprendi, ao longo deste ano, que o descanso não é o oposto do trabalho. É parte dele. Que uma versão de mim descansada, presente, alinhada, serve as pessoas que acompanho de uma forma muito mais profunda do que uma versão de mim esgotada a tentar dar o que já não tem.
Cuidar de mim não é egoísmo. É responsabilidade.
E estas férias são exactamente isso. Um acto de responsabilidade comigo própria e com tudo o que faço.
Durante as próximas semanas vou continuar a partilhar por aqui. Não sobre trabalho. Não sobre conteúdo planeado. Sobre o que for surgindo. O que o descanso me trouxer. O que o silêncio me disser. O que acontece quando finalmente paro de correr e me permito simplesmente estar.
Talvez seja exactamente isso que precisas de ler agora. Não mais uma técnica. Não mais um método. Só alguém a dizer em voz alta que é permitido parar. Que mereces férias. Que o mundo não desmorona quando cuidas de ti.
Fica por aqui se quiseres. Vai ser real. Vai ser honesto. E vai ser leve.
Com amor, Carla Estêvão 💎
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